Relatório de Atividades – Restauração de Bonequinha de Seda e Berlim na Batucada

O projeto de restauração dos filmes Bonequinha de Seda, produção Cinédia realizada em 1936 e dirigida por Oduvaldo Vianna, e Berlim na Batucada, produção Cinédia realizada em 1944 e dirigida por Luís de Barros, tem por objetivo a confecção de novas matrizes de preservação e de novas cópias de exibição. Os trabalhos se iniciaram em setembro de 2007, baseados no planejamento original, e se encontram em estágios diferenciados de acordo com a natureza material de cada filme. Modificaram-se rapidamente, entretanto, aquelas premissas, tendo em vista os materiais recolhidos para duplicação e as condições físicas dos mesmos, que se revelaram mais problemáticas do que o esperado. A avaliação realizada em 2005, época de redação do projeto, mostrou-se inteiramente defasada frente ao ritmo de deterioração das películas. O que se segue é um relato das ações efetuadas até o presente momento.

Bonequinha de Seda

Na época de preparação do projeto foi feita uma pesquisa de materiais para determinar de um lado a urgência ou não de duplicação de Bonequinha de Seda e quais seriam as melhores fontes para a restauração. Os materiais originalmente pertencentes à Cinédia tinham se perdido quase que por completo na enchente de 1996. Do contratipo combinado 35mm nada sobrou, do máster combinado 35mm sobrou apenas o rolo 2 e das cinco cópias combinadas 35mm sobraram 4 rolos dispersos que não recompunham a obra. É preciso mencionar que a Cinédia possuía duas versões do filme, sendo uma delas uma versão “compacta”, isto é, que havia reeditado o número musical final, reduzindo-o pela metade em sua duração original. Um dos rolos de cópia que restaram refere-se a essa versão. Conhecia-se além desses materiais apenas o contratipo combinado 35mm depositado na Cinemateca Brasileira. Devido ao fato de que este material estava em processo de acidificação (síndrome do vinagre), a obra corria um risco real de desaparecimento. Avaliação feita á época considerou-o apto para duplicação, com alguns cuidados mínimos.
Todo o processo de restauração estava baseado neste contratipo, considerado quase completo. Ao mesmo tempo que procedia-se a uma nova e mais ampla pesquisa de materiais, que revelou a existência ainda de uma cópia combinada 16mm, foi feita uma nova e cuidadosa avaliação do material da Cinemateca Brasileira pelo coordenador da restauração e sua assistente e pelos técnicos da Labocine, empresa onde seria feita a duplicação. Constatou-se que o material estava extremamente acidificado, tendo ultrapassado o ponto de auto-catálise (2.5º) e revelado sinais pontuais de hidrólise, com desprendimento de emulsão. Fazia-se urgente a necessidade duplicação, tendo em vista o grau acentuado de encolhimento longitudinal, quase 1% em grande parte de sua extensão e mais de 1% em certos pontos, e sua iminência de deformação e fragilização completos, impedindo o uso de janela molhada e duplicação por contato, implicando em uma duplicação ótica quadro a quadro, que além de financeiramente inviável, reproduziria a obra com imperfeições graves e irreversíveis, sobretudo quanto ao foco.
Procedeu-se a um exame detido deste contratipo, procurando identificar os pontos mais problemáticos em termos de duplicação. O objetivo era eventualmente usar os fragmentos existentes para cobrir os trechos mais críticos, com exceção da cópia 16mm, descartada por conta da diferença de quadro em uma eventual ampliação. Neste exame descobriu-se uma série de marcas – emendas, números inscritos nos fotogramas, fades de som, etc. – que foram reencontradas nos demais materiais, confirmando que todas as cópias e intermediários remanescentes do filme vinham dessa mesma fonte. Realizou-se
uma pesquisa para descobrir a exata origem do contratipo. Consta nos registros da Cinemateca Brasileira que o mesmo foi confeccionado no laboratório Rex no início dos anos 70 a partir de uma cópia combinada nitrato 35mm, que se perdeu em um dos incêndios da instituição no começo dos anos 80. Nos registros da Cinédia menciona-se que este contratipo serviu de base em 1975 para a confecção de todos os seus materiais: máster, contratipo e cópias, ora parcial ou totalmente perdidos. Um aspecto permanece enigmático, pois o material tem um número de tombo em diversos rolos, dando-o como pertencente ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo, fato não confirmado pela instituição. Segundo Alice Gonzaga a versão contida no contratipo-CB seria a versão produzida pelo distribuidor Oswaldo Massaini no início dos anos 50. Nos arquivos da Cinédia pode-se descobrir que Massaini solicitou o negativo original em 1948 para um relançamento a partir de São Paulo. O laboratório Rex Filme considerou impraticável a confecção de novas cópias, pois os negativos estariam deteriorados. O produtor Adhemar Gonzaga encaminhou então estes materiais para o laboratório de Alberto Botelho. Em carta deste ao primeiro confirma-se que alguns rolos do negativo original empedraram e outros hidrolisaram pontualmente. Botelho recolheu todas as cópias existentes, recompôs uma mais completa, contratipou os trechos faltantes no negativo e procedeu à feitura de duas novas cópias para o relançamento, ocorrido por volta de 1952. Como Massaini recolheu todos os materiais de sua distribuidora à Cinemateca Brasileira e lá não constam registros nem a presença física dos negativos ou destas cópias, pressupõe-se a sua perda ou destruição conforme práticas da época. O que sobreviveu foi a cópia reconstituída em 1948 e depositada por Gonzaga na Cinemateca Brasileira por volta de 1954. Por dedução entende-se que é a cópia que serviu de base para o contratipo dos anos 70 e que as marcas são fruto da ação de Botelho. Por ser a fonte mais próxima do material original, por manter características técnicas de bitola, quadro, etc., e por ser a versão mais completa, não havia dúvida em transformá-la na base de todo o processo de restauração, com vistas a obtenção de um novo material o mais homogêneo possível.
Para a copiagem do contratipo-CB foi escolhido e adaptado um copiador Bell & Howell de passo lento – cerca de 4 fotogramas por segundo -, suficientemente flexível para se ajustar às variações de encolhimento e estabilizar o quadro final. Um dispositivo de janela molhado foi acoplado de forma a atenuar riscos, abrasões e similares. Por segurança foi decidido que o primeiro material a ser gerado seria um máster combinado 35mm em duplicate pancromático, mantendo a paridade em rolo simples, com um total de 11 rolos – os fragmentos estão em rolo duplo. Caso o contratipo não agüentasse mais do que uma passada ou viesse e perder trechos de emulsão, o que se verificou minimamente, seria possível gerar novo contratipo, apto a permitir novas cópias sem contraste tão acentuado quanto se o caminho escolhido fosse gerar primeiro uma cópia. Outra razão para tanto foi manter as características do material de base, proporcionando a reversibilidade do processo, e também obter uma melhor performance do som a partir da transcrição em positivo, o que permite a correção das distorções naturais do meio negativo. É por este motivo que se manteve no máster gerado a forte interferência inscrita na trilha sonora dos rolos 2 e 6, causado aparentemente por um risco vindo ou do negativo original ou dos materiais recompostos por Botelho. Os primeiros testes revelaram alguns problemas graves. Boa parte dos riscos está inscrita fotograficamente e não fisicamente, o que indica que o contratipo-CB foi produzido sem o uso da janela molhada e que a restauração atual não tinha como atuar sobre este aspecto. Outro dado importante foi a constatação de um emaecimento extremamente acentuado da imagem, resultando em um forte contraste, inibidor dos meios-tons, justamente o padrão fotográfico dominante da obra tal como foi lançada em 1936. Embora os fragmentos copiados em 1975 tenham melhor resolução de contraste, uma mescla de materiais revelou-se problemática em termos foto-químicos, pois não se conseguiria uma uniformidade visual final adequada. As distorções laterais e longitudinais provocadas pelo encolhimento puderam ser corrigidas satisfatoriamente. A distorção de quadro verificada ao longo de praticamente todo o filme – invasão a partir da lateral direita do contorno preto do quadro -, com maior acentuação nos rolos finais, não foi produzida pela atual copiagem, estando inscrita no contratipo-CB e em todos os outros materiais remanescentes. Especula-se que a cópia nitrato já continha um forte encolhimento lateral e gerou este defeito. Outra possibilidade, pouco provável, devido à relativa uniformidade da distorção, relaciona-se ao processo de copiagem, mal realizado, ou ao copiador utilizado e que poderia estar com defeito de manutenção na janela. Este problema também não pode ser corrigido em restauração foto-química.
A confecção do máster foi satisfatória do ponto de vista físico, mas a base obtida não permitia um reconstituição do contraste de forma adequada. Nos testes de contratipagem realizados, o contraste revelou-se extremamente acentuado, comprometendo a informação visual. Não haveria ganho algum nesta passagem e sim perdas sensíveis do ponto de vista estético. Optou-se por confeccionar diretamente uma cópia combinada 35mm, procurando manipular a marcação de luz de forma a puxar os meios-tons onde fosse possível. O resultado obtido preserva a origem das informações neste estágio da existência da obra e permite um contato natural com sua natureza foto-química, conhecidos os limites de restauração instaurados pelo tempo e sobretudo pela deterioração física da fonte utilizada. Nesta nova cópia o som sofreu poucas intervenções de forma a preservar a inteligibilidade e o acento natural do som da época, já que um processo mais forte de limpeza revelou uma distorção grave da natureza do original.
A rigor o processo de restauração tal como foi proposto se completou e os materiais podem ser examinados. O dvd que acompanha este relatório foi telecinado da nova cópia produzida e demonstra o sucesso da recuperação da obra em termos de sua sobrevivência, o que é algo de extrema importância considerando o nível de perdas da cinematografia brasileira e o grau de comprometimento das matrizes existentes. Bonequinha de Seda tem nova matriz de preservação, a ser encaminhada à Cinemateca Brasileira, e nova cópia de difusão, disponível para circulação. Da nova matriz seria possível gerar novos materiais de acesso, como a produção de dvds e a confecção de matrizes em vídeo analógico ou digital para exibição em televisão e outros meios audiovisuais. Porém, os responsáveis pelo projeto não ficaram totalmente satisfeitos com os resultados obtidos. Embora o projeto não preveja qualquer forma de intervenção digital e as limitações técnicas desse processo e seus custos financeiros fossem igualmente restritivos, discutiu-se a amplitude dos ganhos que uma estratégia dessa natureza proporcionaria ao filme. Esta discussão repercutiu favoravelmente junto à Labocine Digital que estava comprando equipamentos destinados à restauração digital. Foi proposto à empresa utilizar a restauração do filme como uma forma de aprendizado do processo e como um portfolio de seus novos serviços. A negociação caminhou favoravelmente e alguns testes foram realizados a partir do contratipo-CB para se determinar um custo aproximado desta restauração e se este custo poderia ser transformado em uma parceria benéfica para ambos os lados. Os primeiros resultados revelaram uma atuação importante no que se refere a maior parte dos ruídos visuais produzidos por Botelho, a uma intervenção no contraste das cenas, permitindo a ferramenta digital intervir por área dentro do plano visual, e a uma correção da distorção de quadro. O resultado quanto aos riscos e abrasões, entretanto, foi mínimo, revelando uma limitação intrínseca desse tipo de ferramenta. Uma intervenção mais drástica revelou graves distorções, com abundante produção de artefatos digitais e criação de movimentos em falso para elementos dentro do quadro. O responsável técnico da Labocine Digital, Leonardo Puppin, levou os testes realizados para a NAB 2008, feira de equipamentos audiovisuais realizada em abril em Las Vegas, e discutiu os problemas encontrados com 8 diferentes fabricantes de softwares de restauração digital. Os testes realizados durante a feira deram resultados semelhantes, descobrindo-se, por exemplo, que não havia ganho real no escaneamento a 4K ou a 6K. Todos os fabricantes comentaram que era possível melhorar a questão dos riscos, mas de forma pouco sensível e a um custo grande, sobretudo com o uso de máscaras eletrônicas e de um grande número de estações de tratamento de forma a abreviar o tempo de restauração, estimado para o parque instalado na Labocine Digital para cerca de três anos. Em julho a Coordenadora-Assistente da restauração, Débora Butruce, levou os testes em película para o Taller de Restauração promovido pela Escola de Cinema de Santo Antonio de los Baños, em Cuba, onde se reuniu grande número de restauradores de diversas cinematecas do mundo. A avaliação foi similar, indicando o quanto os procedimentos adotados estavam no caminho certo.
A partir daí a discussão com a Labocine Digital centrou-se na possibilidade ou não de realizar um ganho real com a ferramenta digital. Novo teste foi realizado, estabelecendo-se como parâmetros: escaneamento a 2K, tratamento em software Diamant, correção de luz, densidade e quadro em Scratch, e copiagem final em película via transfer 35mm. O resultado foi bastante satisfatório e considerado um ganho real sobre a restauração foto-química, mas haveria um custo financeiro para esta resolução significativa, pois seria necessário duplicar o número de estações de tratamento instaladas e o número de profissionais envolvidos de forma a apresentar o trabalho pronto no prazo de 12 a 15 meses. Abreviou-se infelizmente o nível de intervenção máximo para um nível intermediário, que mesmo assim representa ganho real, com a Cinédia estabelecendo essa parceria com a Labocine Digital, que figurará no projeto como co-patrocinadora, permanecendo a Petrobras como patrocinadora principal, embora o contrato não girasse em torno dessa nova intervenção. A Cinédia igualmente aportará a quantia adicional necessária para a realização dos serviços, previstos para conclusão em agosto de 2009.
O começo do trabalho, entretanto, revelou um problema insolúvel. O contratipo-CB não agüentou a dupla copiagem anterior e além de desprender uma quantidade maior de trechos da emulsão, seu grau de encolhimento revelou-se incompatível com a cabeça de captura e o processo de tração do scanner. Tentou-se escanear três diferentes rolos e nenhum deles foi até o final, com dois deles não suportando mais de que um terço de escanenamento. Optou-se então por utilizar os fragmentos como base e preenchê-los com os momentos faltantes vindos do contratipo, se isto for possível, ou ainda da cópia 16mm se a grau de desenquadramento não for significativo a ponto de se revelar ao olho do espectador comum.
Com a criação desta nova matriz por via digital, entendeu-se que uma intervenção na trilha sonora torna-se possível, admitindo-se certo grau de distorção no som, mas corrigindo-se os graves artefatos gerados por riscos e por chiados. O novo trabalho de restauração será desenvolvido em parceria com o Centro Técnico Audiovisual, órgão do Ministério da Cultura interessado em especializar-se neste setor e que utilizará o filme para testar seus novos equipamentos e formatar uma metodologia de trabalho adequada a obras tão antigas e específicas, egressas da era do som diretamente gravado na película. O CTAv figurará como apoiador nos créditos do projeto.

Berlim na Batucada

Os problemas enfrentados na restauração de Bonequinha de Seda e a prioridade dada a sua resolução implicaram em um ritmo mais lento de trabalho com relação à restauração de Berlim na Batucada. Embora as duas intervenções devessem caminhar juntas, a efetiva duplicação de materiais do filme de Oduvaldo Vianna cumpriu a rigor 50% das tarefas previstas pelo contrato, entregando um dvd de todo o filme não apenas de 30% dele. Além disso, outros motivos levaram a um processo diferente quanto a Berlim na Batucada. Quando da confecção do projeto em 2005 havia como pressuposto para a restauração a utilização do negativo original em nitrato, assim como uma cópia combinada 35mm também em nitrato. Tanto o negativo quanto a cópia tinham diferenças entre si, mas se complementavam. Na retomada dos trabalhos em setembro de 2007, constatou-se que os negativos de som e imagem originais não existiam mais, embora quatro partes tivessem sido duplicadas pela Cinemateca Brasileira em acetato. Isto criou uma nova realidade de trabalho, na medida em que foi preciso buscar uma quantidade bem maior de materiais do filme e examiná-las cuidadosamente, confrontando todos os materiais remanescentes com as informações documentais existentes na Cinédia. O objetivo é obter uma versão a mais completa possível da obra.
Além disso, seria precisar definir o material de base da restauração, onde os trechos faltantes serão reinseridos. Portanto, além de comparar a montagens das diversas cópias existentes, foi preciso avaliar seu estado físico, capacidade de copiagem, rendimento de contraste, etc.
A pesquisa de materiais foi bem mais difícil e revelou uma realidade problemática. Ao lado da cópia combinada nitrato 35mm e da cópia combinada acetato 35mm, depositadas pela Cinédia na Cinemateca Brasileira, descobriu-se mais duas cópias combinadas 16mm e uma quantidade enorme de fragmentos diversos do filme, em um total de 51 latas de material, quase tudo positivo 16mm. Nenhum desses materiais é completo e todas apresentam diferentes ordenações de montagem, configurando diferentes versões da obra. A partir do conhecimento do argumento e roteiro do filme, partiu-se para um exame linear do conjunto, pressupondo a cópia nitrato, por ser o material mais próximo da primeira geração do filme, como provável material base para a restauração. Esta cópia tem muitas emendas e grande quantidade de trechos faltantes, em uma dimensão que ora indica perda de fotogramas, ora indica ausência de trechos longos. Parte desses buracos são preenchidos pelos fragmentos duplicados do negativo original, mas parte não. A cópia acetato pertencente à Cinédia tem uma montagem bem diversa e é fruto de uma tentativa de reconstituição levada à cabo nos anos 80, tendo como guia o roteiro. A divergência de fontes é preocupante, levando-se em conta uma suposta fidelidade da cópia nitrato à versão original. Mas suas emendas também podem querer indicar uma intervenção e alteração não documentado ao longo do tempo. As cópias 16mm acrescentaram outro dado preocupante. Elas contem cenas não existentes nos materiais 35mm, particularmente um número apoteótico final, passado em um estúdio hollywoodiano. Isto indica um nível de perdas da versão original que ainda não pode ser devidamente avaliado. Quanto aos pequenos fragmentos, quase todos recolhidos pela Cinédia nos anos 70 e 80, ora complementam pequenas perdas, ora sinalizam a ausência de trechos maiores. Seu maior problema é a incompletude, pois a rigor são sobras de processo de montagem anteriores. O processo de reconstituição editorial tem sido lento, pois implicou em exame e descrição de cada material, em comparação por visionamento lado a lado em moviola dos diferentes trechos e na marcação dos elementos que serão utilizados na recomposição, pensando-se a partir os diferentes processos que implicam na obtenção de fragmento necessário à reinserção no material base, que será mesmo a cópia nitrato. Este processo encontra-se bastante adiantado, pois cerca de 70% de todo o material já foi checado, embora se procure ainda certas cenas como a seqüência do gasogênio, considerada perdida em momentos anteriores de reconstituição do filme. O passo seguinte será a duplicação dos trechos faltantes, sua inserção no material base e o início efetivo do processo de restauração, que implicará em cuidadoso processo de harmonização visual e sonora das diferentes fontes utilizadas na restauração. Estima-se em cerca de 6 meses o tempo necessário para o término completo dos trabalhos.

Cronograma de trabalho – Bonequinha de Seda

Julho/Agosto de 2008 – captura de imagem dos materiais em scanner filmlight a 2K de resolução final;
Setembro de 2008 – transcrição de som dos materiais existentes para DAT;
Setembro de 2008 a Março de 2009 – restauração digital do som, incluindo declick, decrackle, dehiss e reequalização;
Setembro de 2008 a Abril de 2009 - tratamento digital da imagem em terminais MAC-Pro e confecção de beta digital para ajuste de sincronismo;
Abril de 2009 – mixagem Dolby mono, transcrição ótica e confecção de novo negativo de som;
Maio/Junho de 2009 – Acerto de densidades, correção de quadro e marcação final de luz no Scratch;
Julho/agosto de 2009 – tape to tape, transfer e confecção de cópia combinada final 35mm.

Cronograma de trabalho – Berlim na Batucada

Agosto/Setembro de 2008 – término do visionamento e confecção do mapa de remontagem;
Setembro de 2008 – transcrição das trilhas sonoras do materiais existentes
Outubro de 2008 – duplicação de trechos para reinserção no material base de restauração;
Novembro/Dezembro – confecção de novo internegativo de imagem em duplicate pancromático 35mm;
Janeiro de 2009 – telecinagem do internegativo para guia da restauração de som, sincronismo e confecção de novo negativo ótico;
Janeiro/março de 2009 – composição do som final e restauração digital do som, incluindo declick, decrackle, dehiss e reequalização;
Abril de 2009 - mixagem Dolby mono, transcrição ótica e confecção de novo negativo de som;

Maio de 2009 – confecção de cópia combinada 35mm final.


Projeto Restauração do Acervo Cinédia – Berlim na Batucada e Bonequinha de Seda
Patrocínio – BR Petrobras

Relatório Final

1- Apresentação

O Projeto Restauração do Acervo Cinédia – Berlim na Batucada e Bonequinha de Seda
foi apresentado ao Ministério da Cultura, para captação de recursos através da Lei de Incentivo a Cultura –e aprovadoLei Rouanet  Diário Oficial em 12 de dezembro de 2006.  O montante original do projeto era de R$ 433.359,49  (quatrocentos e trinta e três mil e trezentos cinqüenta e nove reais e quarenta e nove centavos )dos quais foram captados R$ 299.898,42 (duzentos e noventa e nove mil e oitocentos e noventa e oito reais e quarenta e dois centavos) junto a Petrobras Distribuidora, através da participação no Programa Petrobras Cultural de 2006. Na época da assinatura do contrato 15 de junho de 2007 e início efetivo do projeto em 17 setembro de 2007, recebemos orientação para procedermos a uma adequação orçamentária do projeto original aos recursos a serem disponibilizados pela Petrobras Distribuidora. O projeto redimensionado, consistia em realizar a restauração dos  longas metragens Berlim na Batucada, produzido pela Cinédia e dirigido por Luís de Barros em 1944, e Bonequinha de Seda, produzido pela Cinédia e dirigido por Oduvaldo Vianna em 1936.  O objetivo geral foi salvaguardar as obras para preservação, produzindo-se novos materiais de guarda e de difusão, assim como divulgar filmes fundamentais da filmografia brasileira, especialmente para um público mais jovem, além de especialistas, pesquisadores e a comunidade cinematográfica em geral.

2- O trabalho

As restaurações foram iniciadas em setembro de 2007 e levaram ao todo 32 meses para ficarem prontas. Embora um contrato de patrocínio tivesse sido assinado com a Petrobras Distribuidora, prevendo 3 anos de realização, com encerramento em junho de 2010, a certa altura a legislação pertinente ao patrocínio cultural mudou e tivemos que nos adaptar através de sucessivas prorrogações do projeto junto ao Ministério da Cultura. Algumas adaptações e uma certa pressa se impuseram na etapa final por conta dessa alteração, de todo não prevista e sujeita ás decisões unilaterais do MinC.
Com relação à restauração de Bonequinha de Seda, em função da perda da maior parte das matrizes completas da obra e da sobrevivência de um único material íntegro, não havia opção se não partir do contratipo combinado 35mm pertencente à Cinemateca Brasileira. Na pesquisa por outros materiais, conseguiu-se definir, que esta matriz representava a tentativa de salvamento da obra empreendida em 1948 por Alberto Botelho, a pedido do produtor Adhemar Gonzaga. No entanto, nenhum outro material foi encontrado. A velha matriz tinha ainda sérios problemas de conservação, estando muito acidificada (síndrome do vinagre) e encolhida. Do contratipo foram produzidos um novo interpositivo e uma nova cópia 35mm, sem possibilidade de intervenção pelo processo foto-químico. Como a quase totalidade dos ruídos visuais e sonoros está impresso fotograficamente e sua presença macula a percepção da obra, decidiu-se a partir das novas matrizes empreender em novo projeto a restauração digital de Bonequinha de Seda.
Já Berlim na Batucada representava um desafio de natureza diversa. As matrizes da Cinédia também haviam se perdido, mas um conjunto bem mais significativo de fontes sobreviveram. Foram localizados partes do negativo original, uma cópia original em nitrato com perdas intermitentes, uma cópia aparentemente completa, mas que se revelou de uma versão que enxugara a obra em cerca de 30 minutos, dezenas de fragmentos com extensões que variavam de 1 a cerca de 5 minutos, e uma cópia bastante acidificada e que se revelou imprestável para a restauração. A pesquisa teve grandes dificuldades de estabelecer o que seria efetivamente a versão original do filme, pois descobriram-se 4 versões lançadas entre 1944 e 1986. Nenhuma destas sobreviveu completa, com exceção da de 1952. As de 1974 e 1986 perderam-se por completo, embora possam ser reconstituídas a partir do material remanescente. A versão de 1944 permanece nesse momento inacessível, por conta de ausências significativas nos materiais sobreviventes. Optou-se pela reconstituição da versão de 1952, por ser a única com uma lógica interna preservada, assim como a única cujos materiais foram conservados de forma mais homogênea. De fragmentos diversos de cópias foi produzido um novo internegativo combinado e uma nova cópia 35mm, preservando-se a obra. Dependendo de novas pesquisa e novos projetos uma versão mais próxima da original poderá ainda ser reconstituída no futuro.
Os trabalhos de restauração de imagem foram conduzidos em um e outro projeto pela Labocine do Brasil. O trabalho de restauração do som foi conduzido pela Rob Filmes.  No som a preocupação maior foi à limpeza e a preservação do áudio característico dos respectivos contextos originais de produção. Quando a imagem, de uma maneira geral bastante danificada pelo tempo, procurou-se primordialmente uma legibilidade visual e uma remarcação de luz que equilibrasse melhor os tons das cenas.  O resultado alcançado revelou-se bastante satisfatório tecnicamente, com destaque para a restauração impecável do som, e altamente significativo do ponto de vista histórico e cultural.

3 – As Sessões

A reapresentação pública das 2 obras trabalhadas pelo projeto foi realizada no dia 20 de maio, dia da projeção de Berlim na Batucada, e 21 de maio, data de exibição de Bonequinha de Seda.  Todas as sessões tiveram lugar na sala Cosme Alves Netto da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, instituição que conta com patrocínio da manutenção da Petrobras, sempre as 18:30h. Deve-se indicar aqui que como a apresentação dos filmes ocorreu dentro do ano de comemoração dos 80 anos da companhia produtora dos mesmos, houve desde meados de fevereiro intensa cobertura da data assim como dos projetos de restauração fílmica em andamento, com inúmeras menções aos dois filmes, assim como à exibição ocorrida na Cinemateca. Estas matérias já foram encaminhadas sob a forma de relatório de clipping de imprensa junto com o segundo relatório geral do projeto. Mesmo assim, a primeira sessão teve ainda nova cobertura da impressa escrita e da televisão e constitui-se em um sucesso de público, com a presença de cerca de 120 pessoas. Entre os espectadores presentes estavam remanescentes dos conjuntos musicais presentes no filme, assim como personalidades como a pesquisadora Maria Byington e o professor João Luiz Vieira. Após a sessão realizou-se um animado debate sobre o filme e seu processo de restauração, com o público demonstrando particular interesse pelas imagens documentais de morro que o filme apresenta e que representariam um dos mais antigos registros da favela e do samba do Rio de Janeiro.
No dia 21 ocorreu a projeção de Bonequinha de Seda com a presença de certa de 100 espectadores e a participação de parentes e membros da equipe original do filme, entre eles as atrizes mirins Vera Rezende Cardoso, participante da seqüência da Pró-Matre, e Alice Gonzaga, filha do produtor do filme e Coordenadora de sua restauração, assim como a neta de Vicente Celestino, Daisi Celestino.  Estiveram presentes também, fãs, pesquisadores, técnicos do Museu da Imagem e do Som e um velho ator Eduardo Neguete que havia trabalhado com Gilda de Abreu na década de 30, cujo nome não ficou registrado. Solicitando a palavra antes da sessão, fez breve elogio do artista nacional e de Gilda em particular, dizendo-se gratificado em poder estar ali revendo o filme quase 80 anos depois da estréia a que havia comparecido. Após a sessão, houve um debate com o publico, mediado pelo pesquisador e responsável técnico pelo projeto, Hernani Heffner.  O debate girou em torno da corajosa visão artística de Oduvaldo Vianna, da excelência narrativa da obra para a época em que foi feita e dos problemas de conservação do que se sobrou de Bonequinha de Seda.

4-  Relançamento Público

Para as sessões dos filmes integrantes do Projeto Restauração do Acervo Cinédia – Berlim na Batucada e Bonequinha de Seda, emitiu-se um total de 1.000 convites impressos e enviou-se 3.000 filipetas eletrônicas. E foram enviados através dos correios uma media de 80 convites.
Estão programadas novas apresentações dos filmes em uma série de festivais brasileiros, que homenagearão os 80 anos da Cinédia, a começar pela 4ª CINEOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, que começa dia 11 de junho com a exibição de Bonequinha de Seda. Este filme também deverá abrir em sessão de gala o próximo Festival de Brasília.

No ínicio do ano que vem os filmes serão lançados no mercado de home-vídeo, passando em seguida por canais de televisão fechados e abertos.


Resultado Final

Bonequinha de Seda
Esta versão restaurada de Bonequinha de Seda apresenta a quase totalidade da obra criada em 1936, cujos negativos originais se deterioraram cerca de uma década mais tarde. O filme foi reconstituído a partir de cópias em 1948 por Alberto Botelho, confeccionando-se em seguida o contratipo que serviu de base a esta restauração. Já em avançado estado de deterioração, e tendo incorporado os problemas das cópias que serviram de base à reconstituição, o material não permitiu a melhor reprodução fotográfica e sonora. Muitas passagens evidenciam limitações técnicas insuperáveis com a tecnologia atual. O valor da obra como documento histórico e artístico de uma época permanece inalterado.

Berlim na Batucada

Esta versão restaurada de Berlim na Batucada procurou retirar as alterações e inclusões efetuadas em 1952 por ocasião da morte do cantor Francisco Alves, sem contudo restituir totalmente a versão original do filme, realizado em 1944, e cujos negativos foram destruídos em 1986. O filme foi reconstituído de forma incompleta a partir de diversas cópias e fragmentos, com graus variados de deterioração, confeccionando-se em seguida novos máster, contratipo e cópia. Muitas passagens evidenciam essas limitações, mas o valor da obra como documento histórico e artístico de uma época permanece inalterado.